(POESIA,LITERATURA e a CULTURA em geral)»»»»»»»»»»»»»»»»
"Só existe o tempo único.
Só existe o Deus único.
Só existe a promessa única,
e da sua chama
e das margens da página todos se incendeiam.
Só existe a página única,
o resto fica,
em cinzas. Só existem
o continente único, o mar único –
entrando pelas fendas, batendo, rebentando
correndo de lado a lado".
__________ Robert Duncan
Acabado de participar no passado fim-de-semana em Vila Nova de Famalicão, no encontro literário “Portuguesia: Minas entre os povos da mesma língua, antropologia de uma poética” da autoria do poeta brasileiro Wilmar Silva, evento que para além das várias mesas de debate, proporcionou o lançamento da antologia acima referida através de um livro-DVD, e já fazendo as malas para partir à procura do "sabor do mar", será lançadopelas 21h 30 do dia 16 de Julhona Biblioteca Municipal de Cascais, em São Domingos de Rana, o meu mais recente livro de poesia intitulado “Pedro e Inês ou As madrugadas esculpidas", que possuirá um prefáciodo Prof. Dr. José Carlos Seabra Pereira, da Universidade de Coimbra. Como é referido no prefácio, estamos perante uma poesia, um canto, num “trajecto de maturidade já provada, que não se pode configurar nem dar a ler sem alguma convocação palimpséstica dos legados do Modernismo orfaico e do Neo-Modernismo que o refracta na charneira do século XX. “ E para além disso, perante “O tom evocativo que ganha a expectação de uma «utopia que acorde as águas doMondego» corresponde ao ânimo melancólico do canto que se sabe prometido, após Ruy Belo e Eugénio de Andrade, às margens da memória de alegria”.
O lançamento ocorrerá durante a sessão especial "os poetas da Apenas". Esta será uma sessão especial das Noites Com Poemas, no próximo dia 16 de Julho, a partir das 17h30, na Biblioteca Municipal de Cascais, em Sâo Domingos de Rana, para a qual vos convido.
Com várias actividades a partir das 17h30, pelas 21h 30, terá início o encontro de escritores da Apenas Livros, com obra publicada já no ano de 2009. A sessão decorrerá com a informalidade habitual, mantendo-se, também como é uso da casa, o apelo à participação de todos os presentes. Enriquecendo o encontro, Júlia Zulus (oboé) e Luís Morais (violino) interpretarão obras de Mozart, Telemann e Bach.
Mas porque falar de poesia nunca é demais, chamo a atenção para o dia de amanhã (15/07) umavez que no café-teatro do Centro Cultural da Malaposta, por volta das 20:30, o poeta e amigoWilmar Silva, novamente de visita a Portugal, devido ao "Portuguesia: Minas entre os povos da mesma língua, antropologia de uma poética" apresentará o seu "Yguarani" acabado de sair pela Cosmorama, dando-nos a conhecer parte da sua obra poética.
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Ah, e agora ...Hasta la vistamis amigos - o mar me espera em sua boca de espuma e coração salgado!
- Nos próximos dias 10 e 11 de Julho estarei em Vila Nova de Famalicão a participar num evento que de uma forma extraordinária o poeta Wilmar Silva erigiu com toda a sua força e amor pela poesia. Vila Nova de Famalicão (com o apoio essencial da Câmara Municipal) transforma-se na capital da poesia lusófona, com o lançamento do projecto “Portuguesia: Minas entre os povos da mesma língua, antropologia de uma poética” da autoria do poeta brasileiro Wilmar Silva. Constituído por um livro-DVD e 2 horas de vídeo-poemas (antologia com 100 poetas), o projecto será apresentado na Casa de Camilo, em S. Miguel de Seide.
Entre os vários autores participantes da antologia, destaque para o cabo-verdiano Arménio Vieira, vencedor do Prémio Camões 2009, António Ramos Rosa, E. M. de Melo e Castro, Gonçalo M. Tavares, Luis Quintais, valter hugo mãe, Maria do Rosário Pedreira, Filipa Leal, etc, só para falar de poetas portugueses. A abertura do evento está marcada para as 21h30, de sexta-feira, dia 10 de Julho, com a apresentação do projecto. Segue-se o primeiro de vários debates, que só terminarão pelas 18h00 de sábado. Neste mesmo dia pelas 16h00 efectua-se a projecção do DVD "Portuguesia", Vol. 1 Eu estarei pelas 11h30 de sábado no debate sobre “Poesia: Linhas de Fuga e Transmigração”, com Fernando Aguiar e Luís Serguilha. A moderação será da Ana Gusmão. “Portuguesia” é um programa aprovado pela Secretaria de Estado da Cultura do Governo de Minas Gerais, patrocinado pela Usiminas-Usinas Siderúrgicas de MG. Em Portugal tem como parceiro o município de Vila Nova de Famalicão. A seguir ao fabuloso vídeo sobre a história da língua portuguesa (narração da extraordinária Fernanda Montenegro) seguem-se alguns links ***(depois do vídeo) sobre o evento, onde poderão ver o programa completo e outras notícias sobre o evento.
Lá se esperam todos os amigos e amantes e estudiosos da poesia. O evento e o Wilmar também merecem uma boa afluência e interesse do público em geral. Então lá nos encontraremos. Até!
Conheço o valter hugo mãe desde 2001, quando durante os "IV Encontros Internacionais de Poetas de Coimbra", me foi apresentado pelo Jorge Melícias na esplanada do Café Santa Cruz e ele me evidenciou alguma surpresa pela rejeição liminar do manuscrito do meu primeiro livro acabado de editar, "A Respiração das Vértebras" (Editora Sagesse) pelas edições "Quasi". Mas isso é um outro assunto. O valter é alguém que pode e deve ser apelidado de um artista na sua verdadeira acepção.Como refere o José Rui Teixeira, é alguém profundamente "inconstante e surpreendente nos seus tão idiossincráticos processos criativos", ou seja, é um artista. É poeta, ficcionista, (já foi editor, em projectos editoriais diferentes) desenha, escreve livros para crianças… e agora também canta. Mas, como refere ainda o José Rui teixeira, aquilo que distingue, "não é a excentricidade ou o carácter polissémico da sua criatividade, o que realmente o diferencia é a qualidade intrínseca de tudo aquilo que faz". Mas como já referi, o valter agora canta! Meio bicho e fogo é o primeiro tema do projecto musical GOVERNO. Composto por Miguel Pedro (fundador de bandas como Mão Morta e Mundo Cão), com letra de valter hugo mãe. O projecto GOVERNO é composto por António Rafael (também dos Mãos Morta) nas teclas, Henrique Fernandes no contrabaixo, Miguel Pedro na percussão e programações, e valter hugo mãe na voz. A animação do vídeo colocado mais abaixo é da autoria de Esgar Acelerado, com desenhos de Sara Macedo e do próprio. Agora, como não poderia deixar de ser, um poema da sua poesia reunida em 2008 pela Cosmorama - "folclore íntimo":
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mieloma, um
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os bichos já devem ter
comido o corpo do meu pai.
a casa já expirou pulmões cheios
o seu odor. já todos vieram
ver, inclinaram as cabeças
para trás e cacarejaram. nós
somos outros, parecidos e
discretos, mas outros. por isso
agradecemos a visita mas
perante a morte ficamos
irremediavelmente sós
.
a morte do meu pai não
vos diz respeito. vão-se embora
.......................valter hugo mãe
....................................GOVERNO-Meio Bicho e Fogo
Sophia de Mello Breyner Andresen (nasceu Porto em 06 de Novembro de 1919, e faleceu em Lisboa, a 2 de Julho de 2004). Foi sem dúvida uma das mais importantes e extraordinárias poetas portuguesas. Talvez por isso, acabou por ser a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa, em 1999 - o Prémio Camões.
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“A poesia de Sophia de Mello Breyner Andersen é (...) uma das vozes mais nobres da poesia portuguesa do nosso tempo. Entendamos, por sob a música dos seus versos, um apelo generoso, uma comunhão humana, um calor de vida, uma franqueza rude no amor, um clamor irredutível de liberdade – aos quais, como o poeta ensina, devemos erguer-nos sem compromissos nem vacilações.” (Jorge de Sena).
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Aquele que partiu
. Aquele que partiu Precedendo os próprios passos como um jovem morto Deixou-nos a esperança.
. Ele não ficou para connosco Destruir com amargas mãos seu próprio rosto Intacta é a sua ausência Como a estátua dum deus Poupada pelos invasores duma cidade em ruínas
. Ele não ficou para assistir À morte da verdade e à vitória do tempo
. Que ao longe Na mais longínqua praia Onde só haja espuma sal e vento Ele se perca tendo-se cumprido Segundo a lei do seu próprio pensamento
. E que ninguém repita o seu nome proibido.
................Sophia de Mello Breyner Andresen ........................Chris Cornell-Billie Jean (Michael Jackson)
1. No íntimo do caos o corpo flutua no infinito desigual dos últimos milénios às vezes troca de morada e na casca trémula da pedra ensaia uma fuga abstracta em volta do seu corpo um poder feminino o misterioso feminino que dizem ser uma pequena concha imortal.
2. O corpo não descobre nada encontra apenas um palco vazio talvez o corpo não seja bastante há máscaras que escondem outras máscaras a arte do silêncio todas as visões circundantes às pálpebras encontram o caos antes do paradoxo inesgotável do pó a morte que se tece com o próprio corpo.
...............................Ivan Shishkin (A chuva na floresta, 1891)
Arseny Tarkovsky(n. 25/06/1907 – m. 27/05/1989 ). . Quando sob os pinheiros, e quando escrava, minha alma vestia um corpo torturado, ainda a terra voava célere para mim e as aves se desvairavam ao som rouco dos cavalos, . Agulhas negras, escamas dos pinheiros, as cascas e rubro sob os pés jorra o mirtilo, e meus furiosos dedos rasgam pálpebras, meu corpo quer viver. Será que este sou eu? . Serei eu de carbonizada boca procurandoos joelhos das raízes secas, e que a terra engole como outrora o sangue, e as irmãs de Faetonte se transfiguram, choram âmbar? .............................................Arseny Tarkovsky . Tradução:Nina Guerra e Filipe Guerra ..................................O Lago dos Cisnes-Tchaikovsky
Estou só sob a carnal mareação das pedras plenas de inocência mineral até à carnívora cortesia onde os enigmas adquirem o clamor noctívago da cidade altiva em suas folhas de acanto. ...............É o corpo divino de um fecundo júbilo.
A forma como o eco regressa ideia de labareda granítica memória como a genuína dicção dos lábios coincide com o discernimento dos cantos levantados em seu arcanjo estendendo a fluorescência acesa dos vitrais o clarão aberto. Como os brancos arquipélagos de uma geometria obstinada santa cruz toda a compaixão do verbo sobre o ímpeto na respiração doída do mundo o espaldar primitivo. .........A minuciosa profusão das bocas expostas.
Ela encerra a sua própria concentração de sonhos toda a claridade no coração das cores da brancura e o rosto de deus batido de luz rara em olhos de oiro e azul celeste por dentro da maturação da cidade das lágrimas os seres que vivem junto ao rio onde a indução do amor celebrou o desígnio de um corpo que brota de desejos de casta da flor de lótus toda a punção da pedra acesa. E há uma magia de cores afrontando o cordeiro, o sol e a lua. .................Porque toda a morada é a própria alegoria.
O seu silêncio é a sílaba que respira os olhares a distância dos remoinhos que apaziguam a paixão do primordial ser – que dizem ser a alma dos mortos em que os vivos mergulham em sucessivas e maternais primaveras brancas. O coração e o círculo dos deuses em sua cruz. ..........................................................João Rasteiro .............................Clave de Fado-Igreja de Santa Cruz
No dia em que José Sócrates apontou como exemplo de um erro (erro grave, um daqueles que demonstram claramente a falta de visão para o futuro de um país) cometido pelo seu Governo nesta legislatura, a ausência de um investimento volumoso na área da cultura (as peripécias nos Teatros de São Carlos, Teatro Nacional D. Maria II ou Museu Nacional de Arte Antiga e agora a extinção vergonhosa de Belgais - independentemente dos erros de Maria João Pires, o seu maior terá sido não ter na década de 90 instalado "Belgais" em Inglaterra, após lhe ter sido solicitado tal projecto pelo príncipe Carlos), Portugal perde mais um dos poucos grandes nomes da cultura portuguesa. O maestro e compositor José Calvário morreu hoje, aos 58 anos, em Oeiras. Fernando Tordo considerou José Calvário "um músico de eleição, um grande talento, um grande orquestrador e excelente compositor", cujo desaparecimento é de "lamentar profundamente".
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HAIKU
Abri a passagem: A terra chegou-me até à garganta.
........João Rasteiro
In,O Búzio de Istambul
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.........."A festa da vida"-Carlos Mendes- Música: José Calvário
O "Prémio Camões" 2009, o mais importante galardão literário em língua portuguesa, foi com alguma surpresa atribuído ao poeta cabo-verdiano Arménio Vieira, quando talvez todos esperassem que na linha da frente da poesia Cabo Verdiana para um prémio com este significado pudesse estar talvez o poeta Corsino Fortes. No entanto a distinção de Arménio Vieira, até poderá significar a total liberdade de escolha, análise e gosto pelos membros do júri do Prémio Camões. E além disso, quem é que tem verdadeira autoridade para determinar o que é a justiça na atribuição de um prémio? Aos 68 anos Arménio Vieira, torna-se o primeiro cabo-verdiano a receber o Prémio Camões. O poeta nasceu na cidade da Praia, na Ilha de Santiago, Cabo Verde, em 24 de Janeiro de 1941. Além de escritor (poeta e ficcionista) é jornalista, com várias colaborações em publicações como o "Boletim de Cabo Verde", a revista "Vértice", de Coimbra, "Raízes", "Ponto & Vírgula", "Fragmentos" e "Sopinha de Alfabeto". Foi ainda redactor no jornal "Voz di Povo". Arménio Vieira foi um elemento activo da chamada "Geração de 60", em permanente luta pela liberdade e dignidade do homem Cabo-Verdiano. A atribuição do Prémio Camões a Arménio Vieira é o «reconhecimento da literatura e da visão literária importantíssima» do poeta cabo-verdiano, disse Helena Buescu, presidente do júri e professora da Faculdade de Letras de Lisboa. O poeta possui três das suas quatro obras publicadas em Portugal: «Poemas», de 1981, «O eleito do sol», 1990 e «No inferno», em 1999. Em baixo o poema "Ser Tigre":
Ser Tigre
O tigre ignora a liberdade do salto
é como se uma mola o compelisse a pular.
Entre o cio e a cópula
o tigre não ama.
Ele busca a fêmea
como quem procura comida.
Sem tempo na alma,
é no presente que o tigre existe.
Nenhuma voz lhe fala da morte.
O tigre, já velho, dorme e passa.
Ele é esquivo,
não há mãos que o tomem.
Não soa,
porque não respira.
É menos que embrião
abaixo do ovo, infra-sémen.
Não tem forma,
é quase nada, parece morto.
Porém existe,
por isso espera.
Epopéia, canção de amor,
epigrama, ode moderna, epitáfio,
Ele será quando for tempo disso.
...................................Arménio Vieira
..........................................Tito Paris -Danca Ma Mi Criola
Hoje, dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas estarei em Alvaiázere, na Biblioteca Municipal de Alvaiázere, em representação da "Oficina de Poesia" da FLUC. A leitura integra-se no "Letras à Conversa" e irá decorrer pelas 19hoo. Todos os que puderem aparecer serão bem vindos.
Como um mausoléu . Como um mausoléu enorme e sem ninguém frágil é a revolução difusa das constelações que abriram de corola em corola a madrugada o sentido heróico e excelso da sílaba de oiro um país inclinado sobre a lírica de Camões. . A criança e os cravos, um sopro alucinado no nevoeiro fatigado da espera dos pássaros os que se foram nus com as primeiras chuvas emigrantes de outros sonhos que o tempo urde e há clarões no céu que nunca acendem a terra. . Talvez ainda regresse o grande guerreiro da luz o fogo e abril nos marejados olhos das gaivotas e mulheres transformar-se-ão em pórticos de sal a grande flor perfumada deleitando-se primavera, não chegará seu tempo para enlouquecer o meu. . Como um mausoléu geométrico e sublime dor o golpe incide na língua que molha minha voz ó soluço de palavras maternais e azul profundo e se esta é ainda a ditosa pátria amada de Afonso porque como uma concha está meu coração vazio? .................................................João Rasteiro ........................................Portugal,Portugal-Jorge Palma
Faz hoje 719 anos (em 1290) que faleceu Beatrice Portinari, musa de Dante Alighieri. Mal sonharia a dama que iria representar para sempre uma das mais cantadas formas de amor na voz de um dos mais extraordinários poetas de todos os tempos. Ela foi a própria simbologia do amor, de um amor cristalino e divinal e por isso Dante exaltou Beatrice de uma forma cortês, escrevendo não poder compará-la com outra mulher, e por isso chama-a de beatitude nobilíssima, fazendo referência a algo puro e nobre que não se pode comparar. Beatrice e esse amor aparece como a justificativa da poesia e da própria vida, quase se confundindo com as paixões políticas, igualmente importantes para Dante Alighieri. É sob o signo desse amor que Dante deixará a sua excepcional marca distintiva no Dolce Stil Nuovo e em toda a poesia lírica italiana, vindo a abrir caminho aos poetas e escritores que se lhe seguiram para desenvolverem o tema do Amor (Amore) que, até então, não tinha sido cantado e enfatizado tão profundamente.
..................Dante e Beatriz, Marie Spartali Stillman (1844-1927) [É TÃO GENTIL E TÃO HONESTO O AR] . É tão gentil e tão honesto o ar de minha Dama, quando alguém saúda, que toda boca vai ficando muda e os olhos não se afoitam de a fitar. . Ela assim vai sentindo-se louvar na piedosa humildade em que se escuda, qual fosse um anjo que dos céus se muda para uma prova dos milagres dar. . Tão afável se mostra a quem a mira que o olhar infunde ao coração dulçores que só não sente quem jamais olhou-a. . E quando fala, dos seus lábios voa Uma aura suave, trescalando amores, que dentro d'alma vai dizer: "Suspira!" ...........................DANTE ALIGHIERI (Tradução: Augusto de Campos)
Aqui é a aldeia da boca mais ávida: liberta o círculo da cabeça, o fulgor do amieiro, diz adeus à maldição dos campos álgidos, nus, com o fulgor de aguilhões sobre o poente o lugar é uma epifania das vozes dos grandes ritos. E o coração acolhe-as, acendendo archotes nos dedos secretos da chuva. Cheguei. . A aldeia pega nesse corpo tão sonhador
e projecta-o para o espaço da ternura. Sou amado - e é um corpo divino e instável que sob as trovoadas mastiga e sangra as próprias asas. . Nada há como o afago das árvores simples na gostosa e plena rasura das íntimas enxurradas. ...............................................João Rasteiro In,O Búzio de Istambul, 2008 .........................................Alceu Valença- ANUNCIAÇÃO
A Cosmorama publicou recentemente quase toda a obra poética de Jorge Melícias compilada num interessante volume cognominado "disrupção". Para além de incluir todos os livros desde "iniciação ao remorso" (1998), acresce ainda o inédito - "agma", onde Melícias intenta quase obsessivamente numa busca pela enunciação e representação em perfeito estado de contenção, que permita ser possível transpor toda a potência, toda a energia e violência (palavras-ícones da sua poesia) latentes no universo para as categorias da linguagem e desse modo ambicionar operar na consciência dos corpos, essa profunda e maravilhosa devastação física que é/será o acto de destruição/transmutação da matéria ou lava arrasadora, mas simultaneamente renovadora do sopro. O sopro da poesia, da vida, da linguagem em sua disrupção.
A poesia de Melícias como refere Luís Adriano Carlos, é possuidora de "características quase sem paralelo na sua geração: delicadeza analítica, consciência rítmica, identidade de tom, limpidez de dicção e intensidade figurativa, exercidas numa base mínima de materiais e instrumentos". Em Melícias, julgo podermos moldarmo-nos a uma poesia de profunda tensão, através de uma imagética pujante que pode ser compreendida como um brutal confronto com o cosmos e às crenças inquestionáveis dos valores representativos deste (ou destes) mundo(s). Poesia do “horror” e da “violência”, é um registo da experiência e essencialmente da experiência da linguagem. Brian Strang defende ser esta uma poesia que move o leitor em direcção ao impensável, arrastando-o para o seu interior, para o seu epicentro, para um mundo dado ao estímulo e à imaginação. Assim, estamos sem dúvida perante uma poesia que perturba e obriga quase sempre a reagir. Do inédito "agma" e incluído nesta antologia:
Mil luas passaram, mil sóis procriaram, mil amantes se imaginaram, mil jogos inocentes se perpetuaram, mil desejos se refrearam, mil vozes se escutaram e agora as tuas memórias cíclicas, talvez sonhadas ou inventadas, não conseguem suportar o peso do mundo, o simples peso de uma aldeia que respira abruptamente em metamorfoses, enquanto a terra se afasta e o temporal inunda de seiva a selvagem ternura dos animais cosidos ao corpo da terra. Uma arquitectura de lugar, um espaço originário dos plantadores de amieiros. O céu é um pássaro descomunal envolto em chamas sobre as vozes dos mortos, sobre os livros onde se aprisiona a formosura das palavras, como se fosse possível guardar a transparência do júbilo. Desde as remotas tardes das chuvas que não consigo enumerar os desejos, que exercem com tão grande rigor o domínio das suas formas.
Joseph Brodsky nasceu em 25 de Maio de 1940 em Leningrado - Rússia. Começou a publicar poesia em 1958, essencialmente em revistas clandestinas. Logicamente foi perseguido e preso na década de 60. Acabou condenado a um campo de trabalho no norte da Rússia. Mais tarde foi expulso da Rússia em 1972, passando a morar nos Estados Unidos onde se veio a naturalizar cidadão norte-americano. Aí, começou por traduzir a sua poesia para o inglês e a escrever essencialmente nessa língua. Em 1987, obteve o Prêmio Nobel de Literatura. Morreu em Nova York, em 1996, com 56 anos, sem nunca mais ter voltado ao seu país natal, onde a sua extraordinária obra só veio a ser publicada em grande escala, após a derrocada da União Soviética, em 1991. Actualmente encontra-se sepultado no cemitério da ilha de San Michelle, em Veneza, Itália, junto de outros dois russos ilustres, Diaghliev e Stravinsky.
Tendo sempre predominado na sua poesia uma "estética de vida", onde coexistem os assuntos do tempo (a voz do futuro) e do espaço (o eco da cidade), da dignidade e da política, da honra e do orgulho, do amor e da morte. As metáforas em Brodsky, como refere Carlos Leite, seu tradutor para o português, "geralmente não são precisas em termos visuais, mas improváveis, exageradas, implausíveis mesmo. Decorrem mais da persistência do pensamento, da dificuldade de pensar, do que do simples olhar, fotográfico ou contemplativo.” É sem dúvida um dos grandes poetas da segunda metade do século XX, que continua a merecer ser redescoberto.
M.B. Querida, hoje saí de casa já muito ao fim da tarde para respirar o ar fresco que vinha do oceano. O sol fundia-se como um leque vermelho no teatro e uma nuvem erguia a cauda enorme como um piano. . Há um quarto de século adoravas tâmaras e carne no braseiro, tentavas o canto, fazias desenhos num bloco-notas, divertias-te comigo, mas depois encontraste um engenheiro~ e, a julgar pelas cartas, tomaste-te aflitivamente idiota. . Ultimamente têm-te visto em igrejas da capital e da província, em missas de defuntos pelos nossos comuns amigos; agora não param (as missas). E alegra-me que no mundo existam ainda distâncias mais inconcebíveis que a que nos separa. . Não me interpretes mal: a tua voz, o teu corpo, o teu nome já não mexem com nada cá dentro. Não que alguém os destruísse, só que um homem, para esquecer uma vida, precisa pelo menos de viver outra ainda. E eu há muito que gastei tudo isso. . Tu tiveste sorte: onde estarias para sempre – salvo talvez numa fotografia - de sorriso trocista, sem uma ruga, jovem, alegre? Pois o tempo, ao dar de caras com a memória, reconhece a invalidez dos seus direitos. Fumo no escuro e respiro as algas podres. ..........................................................Joseph Brodsky In "Paisagem com Inundação”, traduzido do russo por Carlos Leite
Acaba de ser editado o mais recente livro do poeta António Salvado - "ODES". O livro agora editado é uma edição de luxo da Caixotim, integrado na série "Da palavra o fruto", sendo de realçar que o próprio nome da série é da autoria de António Salvado. Na obra emerge a pintura de Raul Costa Camelo, aqui num fraterno e excelente diálogo com a poesia do poeta, englovando seis reproduções de pinturas inéditas. Pela poesia que leu, editou e criou, pelo contributo dado à poesia portuguesa (como já vão longe os anos de convívio e criação com Herberto Helder e a revista "Folhas de Poesia"), com mais de 50 anos de vida literária, António Salvado, talvez Castelo Branco seja muito distante(!?!), já mereceria algumas distinções que tantos, ou alguns por aí já granjearam. Pelo menos "nuestros hermanos" e a mágica Salamanca não o deixa(ra)m passar "despercebido".
É uma longa obra onde a energia poética é um valor intrínseco à sua criatividade, uma obra marcada e guiada por um notável equilíbrio que lhe grangeou, pelo menos, um lugar de destaque na sua geração.
Embora se possa afirmar existir na sua obra uma determinada preponderância por um tom lírico, há na poesia de António Salvado uma "reiterada prática de composição que consiste em desmontar as palavras para que, a partir dos inesperados resultados, possa reconstruir um mundo imaginário, que poderíamos chamar de “o seu mundo ou universo poético”, como afirma Majela Colares.
Em baixo um poema de ODES:
Nunca regresso ao ponto de partida, quando me leva como eremita a solidão do dia em que viajo, quando nem horizontes desordenam com seus fechados véus a vontade afincada de transpor as linhas clandestinas. E porque voltaria? Trabalhoso seria descobrir de novo a senda aberta ao retornar, com poeiras e pedras, sobressaltos, em toda a dimensão da revoada. O ponto de partida diluiu-se aliás no pesadelo de noites infindáveis, sem contorno, sem astros pelo céu a tilintarem e sem segurança do romper da manhã desejada. Companheira leal, a solidão parte sempre comigo até onde a distância não existe. .............................António Salvado
Nunca se aprisionam as súplicas enquanto súplicas, mas apenas aprisionamos uma voz noutra voz, ou mesmo dentro de outra voz. O espaço sangra rubro como
amoras. Do mesmo modo, nunca lemos o poema enquanto poema, mas apenas lemos (n)um poema outro poema, ou mesmo dentro de outro poema – inteiro, exposto.
O grupo de teatro de Coimbra, A Escola da Noite, acolhe na próxima quinta-feira, dia 14 de Maio, pelas 18h00, a apresentação do livro de poesia Terra e Sangue, de Miriam Reyes, editado pela Cosmorama. Miriam Reyes nasceu em Ourense (Espanha), em 1974. Publicou “Espejo negro” (2001), “Bella durmiente” (2004) e “Desalojos” (2008). A sua poesia está traduzida para italiano e português. O livro agora editado reúne os dois primeiros títulos, com traduções de Jorge Melícias e Pedro Sena-Lino, respectivamente. A sessão contará com a presença da autora e de Fernando de Castro Branco, que fará a apresentação do livro.
Miriam Reyes, intima, na sua escrita poética, uma densidade carnal, física, orgânica, com uma crueza, por vezes quase no limite da barbaridade, por vezes profundamente nos limites da ironia, da raiva, do íntimo despojamento. É uma poesia que dói e faz doer, é uma poesia de fêmea, mas não no sentido femininista, é essencialmente, no sentido animalesco de mulher em todo o seu esplendor. Poesia sem dúvida que merece profunda atenção. Do seu livro "Espelho negro", com tradução do poeta Jorge Melícias, o poema 6:
6. Amo este homem misógino. Desejo o seu sexo descarado que passeia de cá para lá que entra onde como e quando deseja vomita seu ódio em mim e parte. Eu, maravilhosa artesã, faço do seu asco a minha melhor criação: uma réplica sua melhorada. Do vómito incubado no mais repugnante dos seres nascerá a criatura que o iguale em força e seja capaz de o destruir por inveja como eu não pude por amor. .................................Miriam Reyes
Além as ilhas passam – são os apocalipses . Além as ilhas passam - são os apocalipses as patas queimadas desabrochando renovadas de pele e logo regressarão fulgurantes alastrando pelas águas inteiras e infundidas entre corpo e lugar, as vagas da febre. A garganta escoada pelo fôlego dos abismos em opulência de sonho de palavra nas hastes entregue ao seu silêncio de verbo obscuro. . . Além passam as ilhas como morcegos de quem se teme o amor e no entanto nas ondas da língua não se teme o bafo mortal de seu carnívoro beijo onde pulsam as guelras. O espanto ainda projecta o fulgor inesperado do poema até ao limite dos corações acesos. .......................................João Rasteiro ...........Frankie Goes To Hollywood-"The Power of Love"
Acaba de ser editada pela COSMORAMA a 2º edição (1º edição das edições etc, 1983 ) de "ANACRUSA68 sonhos", de Ana Hatherly. Deste excelente livro, os dois poemas abaixo:
26/11/60
O terror materializa-se sob a forma de uma pequena luz lilás que se dirige a grande velocidade para a minha janela aberta. Estendo as mãos e colho-a no seu caminho. Afinal era uma pequena e estranha ave violeta e azul marinho. Entretanto queima-me a perna direita. É um sofrimento intenso. Para me aliviar alguém dá-me um golpe e logo imenso sangue começa a jorrar.
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Janeiro de 1963
Um número incontável de mulheres de todas as idades seguindo em fila indiana, entre as quais me encontro. Somos todas prisioneiras e somos conduzidas involuntariamente através de corredores e escadas, deslizando por elas abaixo como que dormindo. Todas sabemos que somos prisioneiras mas estamos mais ou menos serenas. Eu penso: agora sou prisioneira mas um tempo virá em que serei liberta, eu e todas elas. Entretanto estendo a mão para trás procurando trazer a minha filha para junto de mim, para acelerar a sua libertação.
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.......................................Carlos Mendes - A festa da vida
E o sol desce como um falcão, um relâmpago ígneo celebra-se no presságio, atalha-se o silêncio o visível e o invisível das súplicas que dormem a perversa inocência,
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no cume das bocas as flores murchas
como incautas candeias adormecidas. .................................João Rasteiro
Já calaram a tua boca já mas certamente esqueceram uma pequena sílaba somente semente em algum canto lá nos recantos de um país de mim uma flor livre sob a terra obsessiva e sagrada do jardim. * Já calaram a tua voz pá mas certamente esqueceram o odor fresco semente somente das rosas e do jasmim. ........................Manuel de Cenáculo
(Coimbra - Portugal, 1965). Poeta e ensaísta. Efectuou estudos superiores no âmbito das Literatura Modernas na U.C. É sócio da Associação Portuguesa de Escritores, membro do Conselho Editorial da Revista Oficina de Poesia e do Conselho Editorial da revista brasileira Confraria do Vento(Edição impressa). Tem poemas publicados em várias Revistas e Antologias em Portugal, Brasil, Colômbia, Itália e Espanha e poemas traduzidos para o Espanhol, Italiano, Inglês e Finlandês. Publicou os livros de poesia, A Respiração das Vértebras (Sagesse, 2001), No Centro do Arco (Palimage, 2003, Os Cílios Maternos (Palimage, 2005) e "O Búzio de Istambul"(Palimage, 2008). Obteve vários prémios, como a Segnalazione di Merito no Concurso Internacionale de Poesia: Publio Virgilio Marone(Itália-2003) e o 1º prémio no Concurso de Poesia e Conto: Cinco Povos Cinco Nações, 2004. Em 2005 integrou a antologia: “Cânticos da Fronteira/Cánticos de la Frontera (Trilce Ediciones – Salamanca). Em 2007 foi um dos poetas participantes nos VI Encontros Internacionais de Poetas de Coimbra, F.L.U.C. - Universidade de Coimbra.Em 2008 integrou a antologia "O Reverso do Olhar" - exposição Internac. de Surrealismo Actual.