Terça-feira, 14 de Julho de 2009

Novo livro, Poesia e...FÉRIAS!!!

Acabado de participar no passado fim-de-semana em Vila Nova de Famalicão, no encontro literário “Portuguesia: Minas entre os povos da mesma língua, antropologia de uma poética” da autoria do poeta brasileiro Wilmar Silva, evento que para além das várias mesas de debate, proporcionou o lançamento da antologia acima referida através de um livro-DVD, e já fazendo as malas para partir à procura do "sabor do mar", será lançado pelas 21h 30 do dia 16 de Julho na Biblioteca Municipal de Cascais, em São Domingos de Rana, o meu mais recente livro de poesia intitulado “Pedro e Inês ou As madrugadas esculpidas", que possuirá um prefácio do Prof. Dr. José Carlos Seabra Pereira, da Universidade de Coimbra.
Como é referido no prefácio, estamos perante uma poesia, um canto, num “trajecto de maturidade já provada, que não se pode configurar nem dar a ler sem alguma convocação palimpséstica dos legados do Modernismo orfaico e do Neo-Modernismo que o refracta na charneira do século XX. “ E para além disso, perante “O tom evocativo que ganha a expectação de uma «utopia que acorde as águas do Mondego» corresponde ao ânimo melancólico do canto que se sabe prometido, após Ruy Belo e Eugénio de Andrade, às margens da memória de alegria”.

O lançamento ocorrerá durante a sessão especial "os poetas da Apenas". Esta será uma sessão especial das Noites Com Poemas, no próximo dia 16 de Julho, a partir das 17h30, na Biblioteca Municipal de Cascais, em Sâo Domingos de Rana, para a qual vos convido.
Com várias actividades a partir das 17h30, pelas 21h 30, terá início o encontro de escritores da Apenas Livros, com obra publicada já no ano de 2009. A sessão decorrerá com a informalidade habitual, mantendo-se, também como é uso da casa, o apelo à participação de todos os presentes.
Enriquecendo o encontro, Júlia Zulus (oboé) e Luís Morais (violino) interpretarão obras de Mozart, Telemann e Bach.
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Mas porque falar de poesia nunca é demais, chamo a atenção para o dia de amanhã (15/07) uma vez que no café-teatro do Centro Cultural da Malaposta, por volta das 20:30, o poeta e amigo Wilmar Silva, novamente de visita a Portugal, devido ao "Portuguesia: Minas entre os povos da mesma língua, antropologia de uma poética" apresentará o seu "Yguarani" acabado de sair pela Cosmorama, dando-nos a conhecer parte da sua obra poética.
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Ah, e agora ... Hasta la vista mis amigos - o mar me espera em sua boca de espuma e coração salgado!

Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

PORTUGUESIA: Festa da Poesia Lusófona

- Nos próximos dias 10 e 11 de Julho estarei em Vila Nova de Famalicão a participar num evento que de uma forma extraordinária o poeta Wilmar Silva erigiu com toda a sua força e amor pela poesia. Vila Nova de Famalicão (com o apoio essencial da Câmara Municipal) transforma-se na capital da poesia lusófona, com o lançamento do projecto “Portuguesia: Minas entre os povos da mesma língua, antropologia de uma poética” da autoria do poeta brasileiro Wilmar Silva. Constituído por um livro-DVD e 2 horas de vídeo-poemas (antologia com 100 poetas), o projecto será apresentado na Casa de Camilo, em S. Miguel de Seide.
Entre os vários autores participantes da antologia, destaque para o cabo-verdiano Arménio Vieira, vencedor do Prémio Camões 2009, António Ramos Rosa, E. M. de Melo e Castro, Gonçalo M. Tavares, Luis Quintais, valter hugo mãe, Maria do Rosário Pedreira, Filipa Leal, etc, só para falar de poetas portugueses.
A abertura do evento está marcada para as 21h30, de sexta-feira, dia 10 de Julho, com a apresentação do projecto. Segue-se o primeiro de vários debates, que só terminarão pelas 18h00 de sábado. Neste mesmo dia pelas 16h00 efectua-se a projecção do DVD "Portuguesia", Vol. 1
Eu estarei pelas 11h30 de sábado no debate sobre “Poesia: Linhas de Fuga e Transmigração”, com Fernando Aguiar e Luís Serguilha. A moderação será da Ana Gusmão.
“Portuguesia” é um programa aprovado pela Secretaria de Estado da Cultura do Governo de Minas Gerais, patrocinado pela Usiminas-Usinas Siderúrgicas de MG. Em Portugal tem como parceiro o município de Vila Nova de Famalicão.
A seguir ao fabuloso vídeo sobre a história da língua portuguesa (narração da extraordinária Fernanda Montenegro) seguem-se alguns links *** (depois do vídeo) sobre o evento, onde poderão ver o programa completo e outras notícias sobre o evento.
Lá se esperam todos os amigos e amantes e estudiosos da poesia. O evento e o Wilmar também merecem uma boa afluência e interesse do público em geral. Então lá nos encontraremos. Até!



***
http://www.cm-vnfamalicao.pt/Portuguesia-Programa.pdf

http://www.cm-vnfamalicao.pt/noticias/desenv_noticias.php?ntid=2496

http://www.acorianooriental.pt/noticias/view/188141

http://www.triplov.com/poesia/ruy_ventura/2008/Wilmar-Silva/index.htm



Domingo, 5 de Julho de 2009

(des)GOVERNO...de Portugal!


Conheço o valter hugo mãe desde 2001, quando durante os "IV Encontros Internacionais de Poetas de Coimbra", me foi apresentado pelo Jorge Melícias na esplanada do Café Santa Cruz e ele me evidenciou alguma surpresa pela rejeição liminar do manuscrito do meu primeiro livro acabado de editar, "A Respiração das Vértebras" (Editora Sagesse) pelas edições "Quasi". Mas isso é um outro assunto.
O valter é alguém que pode e deve ser apelidado de um artista na sua verdadeira acepção.Como refere o José Rui Teixeira, é alguém profundamente "inconstante e surpreendente nos seus tão idiossincráticos processos criativos", ou seja, é um artista. É poeta, ficcionista, (já foi editor, em projectos editoriais diferentes) desenha, escreve livros para crianças… e agora também canta. Mas, como refere ainda o José Rui teixeira, aquilo que distingue, "não é a excentricidade ou o carácter polissémico da sua criatividade, o que realmente o diferencia é a qualidade intrínseca de tudo aquilo que faz". Mas como já referi, o valter agora canta!
Meio bicho e fogo é o primeiro tema do projecto musical GOVERNO. Composto por Miguel Pedro (fundador de bandas como Mão Morta e Mundo Cão), com letra de valter hugo mãe. O projecto GOVERNO é composto por António Rafael (também dos Mãos Morta) nas teclas, Henrique Fernandes no contrabaixo, Miguel Pedro na percussão e programações, e valter hugo mãe na voz. A animação do vídeo colocado mais abaixo é da autoria de Esgar Acelerado, com desenhos de Sara Macedo e do próprio. Agora, como não poderia deixar de ser, um poema da sua poesia reunida em 2008 pela Cosmorama - "folclore íntimo":
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mieloma, um
.
os bichos já devem ter
comido o corpo do meu pai.
a casa já expirou pulmões cheios
o seu odor. já todos vieram
ver, inclinaram as cabeças
para trás e cacarejaram. nós
somos outros, parecidos e
discretos, mas outros. por isso
agradecemos a visita mas
perante a morte ficamos
irremediavelmente sós
.
a morte do meu pai não
vos diz respeito. vão-se embora
.......................valter hugo mãe
....................................GOVERNO - Meio Bicho e Fogo

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

"No tempo dividido"

Sophia de Mello Breyner Andresen (nasceu Porto em 06 de Novembro de 1919, e faleceu em Lisboa, a 2 de Julho de 2004). Foi sem dúvida uma das mais importantes e extraordinárias poetas portuguesas. Talvez por isso, acabou por ser a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa, em 1999 - o Prémio Camões.
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A poesia de Sophia de Mello Breyner Andersen é (...) uma das vozes mais nobres da poesia portuguesa do nosso tempo. Entendamos, por sob a música dos seus versos, um apelo generoso, uma comunhão humana, um calor de vida, uma franqueza rude no amor, um clamor irredutível de liberdade – aos quais, como o poeta ensina, devemos erguer-nos sem compromissos nem vacilações.” (Jorge de Sena).
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Aquele que partiu
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Aquele que partiu
Precedendo os próprios passos como um jovem morto
Deixou-nos a esperança.
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Ele não ficou para connosco
Destruir com amargas mãos seu próprio rosto
Intacta é a sua ausência
Como a estátua dum deus
Poupada pelos invasores duma cidade em ruínas
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Ele não ficou para assistir
À morte da verdade e à vitória do tempo
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Que ao longe
Na mais longínqua praia
Onde só haja espuma sal e vento
Ele se perca tendo-se cumprido
Segundo a lei do seu próprio pensamento
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E que ninguém repita o seu nome proibido.
................Sophia de Mello Breyner Andresen
........................Chris Cornell - Billie Jean (Michael Jackson)

Sábado, 27 de Junho de 2009

Intemporalidades

1.
No íntimo do caos
o corpo flutua no infinito desigual
dos últimos milénios
às vezes troca de morada
e na casca trémula da pedra
ensaia uma fuga abstracta
em volta do seu corpo
um poder feminino
o misterioso feminino que dizem ser
uma pequena concha imortal.

2.
O corpo não descobre nada
encontra apenas um palco vazio
talvez o corpo não seja bastante
há máscaras que escondem outras máscaras
a arte do silêncio
todas as visões circundantes às pálpebras
encontram o caos
antes do paradoxo inesgotável do pó
a morte que se tece com o próprio corpo.
................................................João Rasteiro
In, "A Respiração das Vértebras - 2001
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.......................Michael Jackson - Black or White

Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

LUGARES

...............................Ivan Shishkin (A chuva na floresta, 1891)

Arseny Tarkovsky (n. 25/06/1907 – m. 27/05/1989 ).
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Quando sob os pinheiros, e quando escrava,
minha alma vestia um corpo torturado,
ainda a terra voava célere para mim
e as aves se desvairavam ao som rouco dos cavalos,
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Agulhas negras, escamas dos pinheiros,
as cascas
e rubro sob os pés jorra
o mirtilo,
e meus furiosos dedos rasgam pálpebras,
meu corpo quer viver. Será que este
sou eu?
.
Serei eu de carbonizada boca procurandoos

joelhos das raízes secas, e que a terra
engole como outrora o sangue, e as irmãs
de Faetonte se transfiguram, choram âmbar?
.............................................Arseny Tarkovsky
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Tradução: Nina Guerra e Filipe Guerra
..................................O Lago dos Cisnes - Tchaikovsky

Domingo, 21 de Junho de 2009

LUGARES

Santa Cruz

Estou só sob a carnal mareação das pedras
plenas de inocência mineral
até à carnívora cortesia
onde os enigmas adquirem o clamor noctívago
da cidade altiva
em suas folhas de acanto.
...............É o corpo divino de um fecundo júbilo.


A forma como o eco regressa ideia de labareda
granítica memória
como a genuína dicção dos lábios
coincide com o discernimento dos cantos
levantados em seu arcanjo
estendendo a fluorescência acesa dos vitrais
o clarão aberto. Como os brancos arquipélagos
de uma geometria obstinada
santa cruz
toda a compaixão do verbo sobre o ímpeto
na respiração doída do mundo
o espaldar primitivo.
.........A minuciosa profusão das bocas expostas.


Ela encerra a sua própria concentração
de sonhos
toda a claridade no coração das cores da brancura
e o rosto de deus batido de luz rara
em olhos de oiro e azul celeste
por dentro da maturação da cidade das lágrimas
os seres que vivem junto ao rio
onde a indução do amor
celebrou o desígnio de um corpo que brota
de desejos de casta da flor de lótus
toda a punção da pedra acesa. E há uma magia de cores
afrontando o cordeiro, o sol e a lua.
.................Porque toda a morada é a própria alegoria.


O seu silêncio é a sílaba que respira os olhares
a distância dos remoinhos
que apaziguam a paixão do primordial ser – que dizem
ser a alma dos mortos em que os vivos
mergulham em sucessivas e maternais primaveras
brancas. O coração e o círculo dos deuses em sua cruz.
..........................................................João Rasteiro
.............................Clave de Fado - Igreja de Santa Cruz

http://pt.wikipedia.org/wiki/Caf%C3%A9_Santa_Cruz
http://www.cafesantacruz.com/

Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

A festa da vida

No dia em que José Sócrates apontou como exemplo de um erro (erro grave, um daqueles que demonstram claramente a falta de visão para o futuro de um país) cometido pelo seu Governo nesta legislatura, a ausência de um investimento volumoso na área da cultura (as peripécias nos Teatros de São Carlos, Teatro Nacional D. Maria II ou Museu Nacional de Arte Antiga e agora a extinção vergonhosa de Belgais - independentemente dos erros de Maria João Pires, o seu maior terá sido não ter na década de 90 instalado "Belgais" em Inglaterra, após lhe ter sido solicitado tal projecto pelo príncipe Carlos), Portugal perde mais um dos poucos grandes nomes da cultura portuguesa. O maestro e compositor José Calvário morreu hoje, aos 58 anos, em Oeiras. Fernando Tordo considerou José Calvário "um músico de eleição, um grande talento, um grande orquestrador e excelente compositor", cujo desaparecimento é de "lamentar profundamente".
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HAIKU
Abri a passagem:
A terra chegou-me
até à garganta.
........João Rasteiro
In, O Búzio de Istambul
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.........."A festa da vida" - Carlos Mendes - Música: José Calvário

Sábado, 13 de Junho de 2009

O eleito do sol

O "Prémio Camões" 2009, o mais importante galardão literário em língua portuguesa, foi com alguma surpresa atribuído ao poeta cabo-verdiano Arménio Vieira, quando talvez todos esperassem que na linha da frente da poesia Cabo Verdiana para um prémio com este significado pudesse estar talvez o poeta Corsino Fortes.
No entanto a distinção de Arménio Vieira, até poderá significar a total liberdade de escolha, análise e gosto pelos membros do júri do Prémio Camões. E além disso, quem é que tem verdadeira autoridade para determinar o que é a justiça na atribuição de um prémio?
Aos 68 anos Arménio Vieira, torna-se o primeiro cabo-verdiano a receber o Prémio Camões. O poeta nasceu na cidade da Praia, na Ilha de Santiago, Cabo Verde, em 24 de Janeiro de 1941. Além de escritor (poeta e ficcionista) é jornalista, com várias colaborações em publicações como o "Boletim de Cabo Verde", a revista "Vértice", de Coimbra, "Raízes", "Ponto & Vírgula", "Fragmentos" e "Sopinha de Alfabeto". Foi ainda redactor no jornal "Voz di Povo".
Arménio Vieira foi um elemento activo da chamada "Geração de 60", em permanente luta pela liberdade e dignidade do homem Cabo-Verdiano.
A atribuição do Prémio Camões a Arménio Vieira é o «reconhecimento da literatura e da visão literária importantíssima» do poeta cabo-verdiano, disse Helena Buescu, presidente do júri e professora da Faculdade de Letras de Lisboa. O poeta possui três das suas quatro obras publicadas em Portugal: «Poemas», de 1981, «O eleito do sol», 1990 e «No inferno», em 1999. Em baixo o poema "Ser Tigre":
Ser Tigre

O tigre ignora a liberdade do salto
é como se uma mola o compelisse a pular.

Entre o cio e a cópula
o tigre não ama.

Ele busca a fêmea
como quem procura comida.

Sem tempo na alma,
é no presente que o tigre existe.

Nenhuma voz lhe fala da morte.
O tigre, já velho, dorme e passa.

Ele é esquivo,
não há mãos que o tomem.

Não soa,
porque não respira.

É menos que embrião
abaixo do ovo, infra-sémen.

Não tem forma,
é quase nada, parece morto.

Porém existe,
por isso espera.

Epopéia, canção de amor,
epigrama, ode moderna, epitáfio,
Ele será quando for tempo disso.
...................................Arménio Vieira
..........................................Tito Paris - Danca Ma Mi Criola

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Quarta-feira, 10 de Junho de 2009

Portugal, Portugal...!

Hoje, dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas estarei em Alvaiázere, na Biblioteca Municipal de Alvaiázere, em representação da "Oficina de Poesia" da FLUC. A leitura integra-se no "Letras à Conversa" e irá decorrer pelas 19hoo. Todos os que puderem aparecer serão bem vindos.


Como um mausoléu
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Como um mausoléu enorme e sem ninguém
frágil é a revolução difusa das constelações
que abriram de corola em corola a madrugada
o sentido heróico e excelso da sílaba de oiro
um país inclinado sobre a lírica de Camões.
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A criança e os cravos, um sopro alucinado
no nevoeiro fatigado da espera dos pássaros
os que se foram nus com as primeiras chuvas
emigrantes de outros sonhos que o tempo urde
e há clarões no céu que nunca acendem a terra.
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Talvez ainda regresse o grande guerreiro da luz
o fogo e abril nos marejados olhos das gaivotas
e mulheres transformar-se-ão em pórticos de sal
a grande flor perfumada deleitando-se primavera,
não chegará seu tempo para enlouquecer o meu.
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Como um mausoléu geométrico e sublime dor
o golpe incide na língua que molha minha voz
ó soluço de palavras maternais e azul profundo
e se esta é ainda a ditosa pátria amada de Afonso
porque como uma concha está meu coração vazio?
.................................................João Rasteiro
........................................Portugal, Portugal - Jorge Palma

Domingo, 7 de Junho de 2009

O Amor e a Poesia

Faz hoje 719 anos (em 1290) que faleceu Beatrice Portinari, musa de Dante Alighieri. Mal sonharia a dama que iria representar para sempre uma das mais cantadas formas de amor na voz de um dos mais extraordinários poetas de todos os tempos. Ela foi a própria simbologia do amor, de um amor cristalino e divinal e por isso Dante exaltou Beatrice de uma forma cortês, escrevendo não poder compará-la com outra mulher, e por isso chama-a de beatitude nobilíssima, fazendo referência a algo puro e nobre que não se pode comparar. Beatrice e esse amor aparece como a justificativa da poesia e da própria vida, quase se confundindo com as paixões políticas, igualmente importantes para Dante Alighieri. É sob o signo desse amor que Dante deixará a sua excepcional marca distintiva no Dolce Stil Nuovo e em toda a poesia lírica italiana, vindo a abrir caminho aos poetas e escritores que se lhe seguiram para desenvolverem o tema do Amor (Amore) que, até então, não tinha sido cantado e enfatizado tão profundamente.
..................Dante e Beatriz, Marie Spartali Stillman (1844-1927)
[É TÃO GENTIL E TÃO HONESTO O AR]
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É tão gentil e tão honesto o ar
de minha Dama, quando alguém saúda,
que toda boca vai ficando muda
e os olhos não se afoitam de a fitar.
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Ela assim vai sentindo-se louvar
na piedosa humildade em que se escuda,
qual fosse um anjo que dos céus se muda
para uma prova dos milagres dar.
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Tão afável se mostra a quem a mira
que o olhar infunde ao coração dulçores
que só não sente quem jamais olhou-a.
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E quando fala, dos seus lábios voa
Uma aura suave, trescalando amores,
que dentro d'alma vai dizer: "Suspira!"
...........................DANTE ALIGHIERI
(Tradução: Augusto de Campos)

Quarta-feira, 3 de Junho de 2009

PAISAGENS

Os passos em volta

Aqui é a aldeia da boca mais ávida:
liberta o círculo da cabeça, o fulgor do amieiro,
diz adeus à maldição dos campos álgidos, nus,
com o fulgor de aguilhões sobre o poente
o lugar é uma epifania das vozes dos grandes ritos.
E o coração acolhe-as, acendendo archotes
nos dedos secretos da chuva. Cheguei.
.
A aldeia pega nesse corpo tão sonhador
e projecta-o para o espaço da ternura.
Sou amado - e é um corpo divino e instável
que sob as trovoadas mastiga e sangra as próprias asas.
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Nada há como o afago das árvores simples
na gostosa e plena rasura das íntimas enxurradas.
...............................................João Rasteiro
In, O Búzio de Istambul, 2008
.........................................Alceu Valença
- ANUNCIAÇÃO

Domingo, 31 de Maio de 2009

A faísca dos corpos

A Cosmorama publicou recentemente quase toda a obra poética de Jorge Melícias compilada num interessante volume cognominado "disrupção". Para além de incluir todos os livros desde "iniciação ao remorso" (1998), acresce ainda o inédito - "agma", onde Melícias intenta quase obsessivamente numa busca pela enunciação e representação em perfeito estado de contenção, que permita ser possível transpor toda a potência, toda a energia e violência (palavras-ícones da sua poesia) latentes no universo para as categorias da linguagem e desse modo ambicionar operar na consciência dos corpos, essa profunda e maravilhosa devastação física que é/será o acto de destruição/transmutação da matéria ou lava arrasadora, mas simultaneamente renovadora do sopro. O sopro da poesia, da vida, da linguagem em sua disrupção.
A poesia de Melícias como refere Luís Adriano Carlos, é possuidora de "características quase sem paralelo na sua geração: delicadeza analítica, consciência rítmica, identidade de tom, limpidez de dicção e intensidade figurativa, exercidas numa base mínima de materiais e instrumentos". Em Melícias, julgo podermos moldarmo-nos a uma poesia de profunda tensão, através de uma imagética pujante que pode ser compreendida como um brutal confronto com o cosmos e às crenças inquestionáveis dos valores representativos deste (ou destes) mundo(s). Poesia do “horror” e da “violência”, é um registo da experiência e essencialmente da experiência da linguagem. Brian Strang defende ser esta uma poesia que move o leitor em direcção ao impensável, arrastando-o para o seu interior, para o seu epicentro, para um mundo dado ao estímulo e à imaginação. Assim, estamos sem dúvida perante uma poesia que perturba e obriga quase sempre a reagir. Do inédito "agma" e incluído nesta antologia:
1.
Sobre a imposição dos abismos
encimarei os gárrulos.
.
Erguer-me-ei das jugulares
como a pura dicção do medo.
2.
Descerei das canas
para a rasura da redenção.
.
No dorso o relâmpago
como uma carena blasfémica.
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E um amor profundo pela impiedade.
3.
Caminharei entre os homens
com um punção virado ao medo.
.
As meninges
recrudescendo nas navalhas
como um apostema.
.
Todo o metal sitiado
pela injunção das ínguas.
...........................Jorge Melícias
.......................................................Mão Morta - Gnoma

Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

Lugares III

...........................................VAN GOGH
Mil luas passaram, mil sóis procriaram, mil amantes se imaginaram, mil jogos inocentes se perpetuaram, mil desejos se refrearam, mil vozes se escutaram e agora as tuas memórias cíclicas, talvez sonhadas ou inventadas, não conseguem suportar o peso do mundo, o simples peso de uma aldeia que respira abruptamente em metamorfoses, enquanto a terra se afasta e o temporal inunda de seiva a selvagem ternura dos animais cosidos ao corpo da terra. Uma arquitectura de lugar, um espaço originário dos plantadores de amieiros. O céu é um pássaro descomunal envolto em chamas sobre as vozes dos mortos, sobre os livros onde se aprisiona a formosura das palavras, como se fosse possível guardar a transparência do júbilo.
Desde as remotas tardes das chuvas que não consigo enumerar os desejos, que exercem com tão grande rigor o domínio das suas formas.
...............................................................João Rasteiro
In, O Búzio de Istambul - Palimage, 2008

Domingo, 24 de Maio de 2009

O(s) Errante(s)

Joseph Brodsky nasceu em 25 de Maio de 1940 em Leningrado - Rússia. Começou a publicar poesia em 1958, essencialmente em revistas clandestinas. Logicamente foi perseguido e preso na década de 60. Acabou condenado a um campo de trabalho no norte da Rússia. Mais tarde foi expulso da Rússia em 1972, passando a morar nos Estados Unidos onde se veio a naturalizar cidadão norte-americano. Aí, começou por traduzir a sua poesia para o inglês e a escrever essencialmente nessa língua. Em 1987, obteve o Prêmio Nobel de Literatura. Morreu em Nova York, em 1996, com 56 anos, sem nunca mais ter voltado ao seu país natal, onde a sua extraordinária obra só veio a ser publicada em grande escala, após a derrocada da União Soviética, em 1991. Actualmente encontra-se sepultado no cemitério da ilha de San Michelle, em Veneza, Itália, junto de outros dois russos ilustres, Diaghliev e Stravinsky.
Tendo sempre predominado na sua poesia uma "estética de vida", onde coexistem os assuntos do tempo (a voz do futuro) e do espaço (o eco da cidade), da dignidade e da política, da honra e do orgulho, do amor e da morte. As metáforas em Brodsky, como refere Carlos Leite, seu tradutor para o português, "geralmente não são precisas em termos visuais, mas improváveis, exageradas, implausíveis mesmo. Decorrem mais da persistência do pensamento, da dificuldade de pensar, do que do simples olhar, fotográfico ou contemplativo.” É sem dúvida um dos grandes poetas da segunda metade do século XX, que continua a merecer ser redescoberto.
M.B.

Querida, hoje saí de casa já muito ao fim da tarde
para respirar o ar fresco que vinha do oceano.
O sol fundia-se como um leque vermelho no teatro
e uma nuvem erguia a cauda enorme como um piano.
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Há um quarto de século adoravas tâmaras e carne no braseiro,
tentavas o canto, fazias desenhos num bloco-notas,
divertias-te comigo, mas depois encontraste um engenheiro~
e, a julgar pelas cartas, tomaste-te aflitivamente idiota.
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Ultimamente têm-te visto em igrejas da capital e da província,
em missas de defuntos pelos nossos comuns amigos; agora
não param (as missas). E alegra-me que no mundo existam ainda
distâncias mais inconcebíveis que a que nos separa.
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Não me interpretes mal: a tua voz, o teu corpo, o teu nome
já não mexem com nada cá dentro. Não que alguém os destruísse,
só que um homem, para esquecer uma vida, precisa pelo menos
de viver outra ainda. E eu há muito que gastei tudo isso.
.
Tu tiveste sorte: onde estarias para sempre – salvo talvez
numa fotografia - de sorriso trocista, sem uma ruga, jovem, alegre?
Pois o tempo, ao dar de caras com a memória, reconhece a invalidez
dos seus direitos. Fumo no escuro e respiro as algas podres.
..........................................................Joseph Brodsky
In "Paisagem com Inundação”, traduzido do russo por Carlos Leite

http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/NLJoBrod.html
http://revistaliterariaazularte.blogspot.com/2008/01/joseph-brodskypoesa-revista-arquitrave.html
http://poemaseningles.blogspot.com/2003/04/joseph-brodsky.html
http://www.mgrande.com/weblog/index.php/partosdepandora/comments/seria_hoje_dia_do_seu_aniversario/

Quarta-feira, 20 de Maio de 2009

Espaços

A morte de Sócrates
Do livro da Contrição dos Mortos, dos Sopros IV

Preparou a construção com os gânglios da morte
Para ser sulco na coroa aberta da terra e renascer

Preparou a construção com os gânglios da morte
Para ser a dolorosa geometria e propagar a chama

Preparou a construção com os gânglios da morte
Porque era reincidência e o coração dos animais

Preparou a construção com os gânglios da morte
Porque tinha sede e caçava pelo olfacto das cobras

Preparou o leito da caça com os gânglios da morte

Para ser ventre da morte e a morte em suas flores
A palavra exaltada em suas escoras a florir e a gerar

Preparou a morte a construção fecunda do corpo nu.
.....................................................João Rasteiro

Sábado, 16 de Maio de 2009

Cânticos da terra

António Salvado, eu e Pedro Salvado
Acaba de ser editado o mais recente livro do poeta António Salvado - "ODES".
O livro agora editado é uma edição de luxo da Caixotim, integrado na série "Da palavra o fruto", sendo de realçar que o próprio nome da série é da autoria de António Salvado. Na obra emerge a pintura de Raul Costa Camelo, aqui num fraterno e excelente diálogo com a poesia do poeta, englovando seis reproduções de pinturas inéditas. Pela poesia que leu, editou e criou, pelo contributo dado à poesia portuguesa (como já vão longe os anos de convívio e criação com Herberto Helder e a revista "Folhas de Poesia"), com mais de 50 anos de vida literária, António Salvado, talvez Castelo Branco seja muito distante(!?!), já mereceria algumas distinções que tantos, ou alguns por aí já granjearam. Pelo menos "nuestros hermanos" e a mágica Salamanca não o deixa(ra)m passar "despercebido".
É uma longa obra onde a energia poética é um valor intrínseco à sua criatividade, uma obra marcada e guiada por um notável equilíbrio que lhe grangeou, pelo menos, um lugar de destaque na sua geração.
Embora se possa afirmar existir na sua obra uma determinada preponderância por um tom lírico, há na poesia de António Salvado uma "reiterada prática de composição que consiste em desmontar as palavras para que, a partir dos inesperados resultados, possa reconstruir um mundo imaginário, que poderíamos chamar de “o seu mundo ou universo poético”, como afirma Majela Colares.
Em baixo um poema de ODES:

Nunca regresso ao ponto de partida,
quando me leva como eremita
a solidão do dia em que viajo,
quando nem horizontes desordenam
com seus fechados véus
a vontade afincada de transpor
as linhas clandestinas.
E porque voltaria? Trabalhoso
seria descobrir
de novo a senda aberta ao retornar,
com poeiras e pedras, sobressaltos,
em toda a dimensão da revoada.
O ponto de partida
diluiu-se aliás no pesadelo
de noites infindáveis, sem contorno,
sem astros pelo céu a tilintarem
e sem segurança do romper
da manhã desejada.
Companheira leal, a solidão
parte sempre comigo
até onde a distância não existe.
.............................António Salvado



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Quarta-feira, 13 de Maio de 2009

Linguagen(s)

TIRANIA
.
Nunca se aprisionam as súplicas
enquanto súplicas, mas apenas
aprisionamos uma voz noutra
voz, ou mesmo dentro de outra
voz. O espaço sangra rubro como
amoras. Do mesmo modo, nunca
lemos o poema enquanto poema,
mas apenas lemos (n)um poema
outro poema, ou mesmo dentro
de outro poema – inteiro, exposto.
E há a fábula das horas obscuras
com uma terrível doçura de garras
embrionárias - borboletas de voz.
.
A tirania é a agonia do verbo - mapa
que inclina insane a cegueira das flores.
.........................................João Rasteiro

Domingo, 10 de Maio de 2009

PAISAGENS

O grupo de teatro de Coimbra, A Escola da Noite, acolhe na próxima quinta-feira, dia 14 de Maio, pelas 18h00, a apresentação do livro de poesia Terra e Sangue, de Miriam Reyes, editado pela Cosmorama. Miriam Reyes nasceu em Ourense (Espanha), em 1974. Publicou “Espejo negro” (2001), “Bella durmiente” (2004) e “Desalojos” (2008). A sua poesia está traduzida para italiano e português.
O livro agora editado reúne os dois primeiros títulos, com traduções de Jorge Melícias e Pedro Sena-Lino, respectivamente. A sessão contará com a presença da autora e de Fernando de Castro Branco, que fará a apresentação do livro.
Miriam Reyes, intima, na sua escrita poética, uma densidade carnal, física, orgânica, com uma crueza, por vezes quase no limite da barbaridade, por vezes profundamente nos limites da ironia, da raiva, do íntimo despojamento. É uma poesia que dói e faz doer, é uma poesia de fêmea, mas não no sentido femininista, é essencialmente, no sentido animalesco de mulher em todo o seu esplendor. Poesia sem dúvida que merece profunda atenção. Do seu livro "Espelho negro", com tradução do poeta Jorge Melícias, o poema 6:


6.
Amo este homem misógino.
Desejo o seu sexo descarado que passeia de cá para lá
que entra onde como e quando deseja
vomita seu ódio em mim e parte.
Eu, maravilhosa artesã,
faço do seu asco a minha melhor criação:
uma réplica sua melhorada.
Do vómito incubado no mais repugnante dos seres
nascerá a criatura que o iguale em força
e seja capaz de o destruir por inveja
como eu não pude por amor.
.................................Miriam Reyes

http://miriamreyes.com/

http://cosmorama-edicoes.blogspot.com/

http://weblog.aescoladanoite.pt/

Quarta-feira, 6 de Maio de 2009

"Novas oportunidades"

Além as ilhas passam – são os apocalipses
.
Além as ilhas passam - são os apocalipses
as patas queimadas desabrochando
renovadas de pele
e logo regressarão fulgurantes
alastrando pelas águas inteiras
e infundidas
entre corpo e lugar, as vagas
da febre. A garganta escoada pelo fôlego
dos abismos
em opulência de sonho
de palavra nas hastes entregue ao seu silêncio
de verbo obscuro.
.
.
Além passam as ilhas como morcegos
de quem se teme o amor
e no entanto nas ondas da língua
não se teme o bafo mortal de seu carnívoro beijo
onde pulsam as guelras. O espanto ainda
projecta o fulgor inesperado do poema
até ao limite dos corações acesos.
.......................................João Rasteiro
...........Frankie Goes To Hollywood - "The Power of Love"

Domingo, 3 de Maio de 2009

Dia da MÃE

......................."Madona" - Edvard Munch

Tenho Saudades do Calor ó Mãe
.
Tenho saudades do calor ó mãe que me penteias
Ó mãe que me cortas o cabelo — o meu cabelo
Adorna-te muito mais do que os anéis
.
Dá-me um pouco do teu corpo como herança
Uma porção do teu corpo glorioso — não o que já tenho —
O que em ti já contempla o que os santos vêem nos céus
Dá-me o pão do céu porque morro
Faminto, morro à míngua do alto
.
Tenho saudades dos caminhos quando me deixas
Em casa. Padeço tanto
Penso tanto
Canto tão alto quando calculo os corpos celestes
.
Ó infinita ó infinita mãe.
......................Daniel Faria, in "Dos Líquidos"
.
Um Poema meu - "A dança das mães":

Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

ANACRUSA

Acaba de ser editada pela COSMORAMA a 2º edição (1º edição das edições etc, 1983 ) de "ANACRUSA 68 sonhos", de Ana Hatherly. Deste excelente livro, os dois poemas abaixo:

26/11/60
O terror materializa-se sob a forma de uma pequena luz lilás que se dirige a grande velocidade para a minha janela aberta. Estendo as mãos e colho-a no seu caminho. Afinal era uma pequena e estranha ave violeta e azul marinho. Entretanto queima-me a perna direita. É um sofrimento intenso. Para me aliviar alguém dá-me um golpe e logo imenso sangue começa a jorrar.
.
Janeiro de 1963
Um número incontável de mulheres de todas as idades seguindo em fila indiana, entre as quais me encontro. Somos todas prisioneiras e somos conduzidas involuntariamente através de corredores e escadas, deslizando por elas abaixo como que dormindo. Todas sabemos que somos prisioneiras mas estamos mais ou menos serenas. Eu penso: agora sou prisioneira mas um tempo virá em que serei liberta, eu e todas elas. Entretanto estendo a mão para trás procurando trazer a minha filha para junto de mim, para acelerar a sua libertação.
.
.......................................Carlos Mendes - A festa da vida

Domingo, 26 de Abril de 2009

Flores

..........Abril

E o sol desce como um falcão,
um relâmpago ígneo celebra-se
no presságio, atalha-se o silêncio
o visível e o invisível das súplicas
que dormem a perversa inocência,
.
no cume das bocas as flores murchas
como incautas candeias adormecidas.
.................................João Rasteiro

Quarta-feira, 22 de Abril de 2009

A liberdade da sílaba

Olvido


calaram a tua boca

mas certamente
esqueceram uma pequena sílaba
somente semente
em algum canto

nos recantos de um país
de mim
uma flor livre
sob a terra obsessiva e sagrada
do jardim.

*

calaram a tua voz

mas certamente
esqueceram o odor fresco
semente somente
das rosas e do jasmim.

........................Manuel de Cenáculo